Fatos comuns nos casos de Feminicídios
Os casos de feminicídio geralmente são resultado de uma combinação complexa de fatores interpessoais, sociais, culturais e estruturais. Baseado em estudos criminológicos, sociológicos e relatórios de organizações que monitoram a violência de gênero, os fatores comuns podem ser agrupados em diferentes níveis:
1. Fatores Relacionais e Interpessoais
*Histórico de violência doméstica: O feminicídio frequentemente é o desfecho fatal de um ciclo de violência que inclui agressões físicas, psicológicas, econômicas e sexuais prévias.
*Ciúmes patológicos e sentimento de posse: A ideia do homem como "proprietário" da mulher, sua vida, corpo e decisões.
*Controle coercitivo: O agressor monitora, isola e domina a vítima, limitando sua autonomia, liberdade e contatos sociais.
*Separação ou tentativa de rompimento: O momento do término ou a ameaça de abandono é um dos gatilhos mais comuns, visto pelo agressor como uma afronta ao seu controle.
*Recusa de reconciliação: Quando a vítima resiste a voltar para o relacionamento.
2. Fatores Sociais e Culturais (Raiz Estrutural)
*Cultura machista e patriarcal: Sociedades que reforçam a superioridade masculina, a subordinação feminina e a ideia de que os homens têm o direito de controlar as mulheres.
*Normalização da violência: A violência contra a mulher é minimizada, justificada ("em briga de marido e mulher não se mete a colher") ou vista como um problema privado.
*Estereótipos de gênero: Crenças rígidas sobre os papéis "adequados" do homem e da mulher, onde a independência feminina é vista como uma ameaça.
*Impunidade e desconfiança no sistema: A falta de aplicação efetiva das leis, a revitimização nas delegacias e a lentidão da Justiça podem encorajar o agressor e desencorajar a denúncia.
*Masculinidade tóxica: A associação da virilidade ao domínio, à agressividade e à incapacidade de expressar emoções de forma não violenta.
3. Fatores Individuais do Agressor
*Transtornos de personalidade: Traços narcisistas, antissociais ou de borderline são frequentemente observados.
*Abuso de substâncias: Álcool e outras drogas podem desinibir a agressividade, mas **não são a causa**. Geralmente, atuam como potencializadores em uma personalidade já violenta.
*Acesso a armas de fogo: Facilita a letalidade da agressão, transformando uma ameaça ou agressão física em morte.
*Histórico de violência: Ter presenciado ou sofrido violência na infância.
4. Fatores Estruturais e Institucionais
*Falta de redes de apoio: Isolamento social, familiar ou falta de acesso a abrigos e serviços especializados.
*Dependência econômica: Dificuldade de sair do relacionamento por falta de recursos próprios, especialmente quando há filhos.
*Deficiências no sistema de proteção: Falhas na expedição ou no cumprimento de medidas protetivas de urgência, monitoramento ineficaz do agressor e falta de capacitação de agentes públicos.
Padrão Comum: Escalada da Violência
Um padrão crucial é que o feminicídio raramente é um evento isolado. Ele costuma ser o estágio final de uma escalada de violência que pode seguir esta trajetória:
1. Violência psicológica e controle.
2. Violência física ou sexual isolada, seguida de reconciliação (ciclo da violência).
3. Aumento da frequência e severidade das agressões.
4. Tentativa de rompimento pela vítima.
5. Aumento do comportamento controlador e ameaças do agressor.
6. Ataque fatal, muitas vezes planejado.
Conclusão
O feminicídio é um fenômeno multicausal, mas sua base está na desigualdade de gênero e na tolerância social a diferentes formas de violência contra a mulher. Combater esse problema exige:
Prevenção primária: Educação para a igualdade de gênero desde a infância.
*Fortificação das instituições: Sistema de Justiça e segurança pública eficaz, rápido e capacitado.
*Redes de apoio robustas: Serviços sociais, psicológicos, abrigos e suporte econômico para as vítimas.
*Responsabilização dos agressores: Aplicação rigorosa da lei e monitoramento.
*Mudança cultural: Desconstrução das normas machistas que legitimam o controle e a violência.
Entender esses fatores comuns é essencial para criar políticas públicas eficazes de prevenção, identificar situações de alto risco e salvar vidas.
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP): Uma das principais referências para dados anuais sobre violência no Brasil. O FBSP publica o Anuário Brasileiro de Segurança Pública que inclui um capítulo detalhado sobre feminicídio, com recortes regionais e étnico-raciais.
- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública: Juntos, publicam o Atlas da Violência, que oferece uma análise aprofundada das taxas de homicídios e feminicídios no país, com séries históricas e dados por 100 mil mulheres.
- Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP): Mantém o Painel de Feminicídios no Brasil, que coleta e apresenta dados de casos de feminicídio em todo o país, a partir das informações fornecidas pelos Ministérios Públicos estaduais.
- Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) do Senado Federal: Em parceria com o Instituto DataSenado e o Instituto Avon, desenvolveu o Mapa Nacional de Violência de Gênero, uma plataforma pública e unificada com dados e indicadores acessíveis sobre a violência contra mulheres.
- Agência Patrícia Galvão: Uma organização da sociedade civil que atua na comunicação e defesa dos direitos das mulheres. Publica regularmente dossiês, pesquisas e análises aprofundadas sobre feminicídio e violência de gênero em seu portal Violência em Dados.
- ONU Mulheres e Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC): Produzem relatórios globais e estimativas conjuntas sobre o assassinato de mulheres e meninas relacionado ao gênero, oferecendo uma perspectiva internacional do problema.
- Universidades e Centros de Pesquisa: Diversas universidades e laboratórios de estudos, como os ligados à Fiocruz e a UEL (Universidade Estadual de Londrina) com o projeto Feminicidômetro, realizam pesquisas e monitoramento epidemiológico do feminicídio.
- Essas fontes são cruciais para a compreensão da magnitude do feminicídio e para subsidiar a formulação de políticas públicas eficazes no Brasil.
Fonte: Edvaldo Marinho - Criminologo
